segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A chuva voltou



Nove meses depois, a chuva voltou.
As encostas ainda estão "carecas", as casas continuam na beira do rio (mais na beira ainda, já que os rios aumentaram), as pessoas continuam desabrigadas, os políticos continuam ganhando muito, o povo continua vivendo mal.
As estradas de terra já tiveram barreiras na primeiríssima chuva, o Rio Preto subiu 4 metros.
Em Ponte Nova, onde a escola nunca reabriu, as pessoas voltaram para casas condenadas debruçadas dentro d'água, e diversas barreiras de terra deslizada continuam como estavam em 13 de janeiro, o povo tem muito medo. O Jhonatan, que trabalha comigo e mora um pouco antes do trevo de São José, me disse que o pessoal tem passado a noite andando pela rua, vigiando o nível do rio com lanternas.
As "pinguelas" (pequenas e precárias pontes de madeira armadas sobre o rio para passagem de pedestres) ao longo de toda a BR 116 caíram nesse fim de semana. A ponte que dá acesso à Fazenda Suiça, Brejal e redondezas continua levando ao vácuo.
E a estrada de Teresópolis para São José está nesse estado das fotos que coloquei acima.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

5 meses

Ontem foi aniversário de cinco meses! Nosso "filho" está ficando cada vez maior! Me surpreendo que algumas pessoas de fora da cidade ainda me perguntam se eu fui diretamente atingida, como está a cidade, e etc. Me surpreendo que AINDA tem gente tirando casquinha da situação, se fazendo de vítima da enchente, e essas pessoas AINDA se dão bem. Ainda ouvimos comentários do tipo "fulano, que morreu na enchente". Ainda tem muitos lugares como esse, sem a menor atenção do governo (não deixe de ver esse filme).


Mas, apesar de muita reclamação ser em função da enchente, fica a pergunta no ar: tirando as perdas humanas, o que era REALMENTE diferente ANTES da grande chuva?????? A cidade tinha buracos, faltavam ônibus, faltavam médicos, faltava carinho.


5 meses.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Ainda parece que foi ontem

Eu sabia que não conseguiria manter o ritmo de postagens diárias, mas imaginei que conseguiria atualizar ao menos semanalmente. Infelizmente, não consegui comprir a proposta inicial de criação do blog, que era justamente não deixar toda essa catástrofe cair no esquecimento. Eu também sabia que a recuperação de toda a área atingida seria lenta. Mas não imaginei que seria tão lenta, ou em muitas situações, inexistente. Aparentemente, o grande dilúvio caiu no esquecimento, sim. No esquecimento das autoridades incompetentes que deveriam há muito tempo já ter feito alguma coisa, mesmo que minúscula para a nossa recuperação.


Em algumas áreas, o descaso é tão grande, que parece que a chuva aconteceu há uma semana, e não há 3 meses e meio. Os escombros ainda estão por toda parte, numa atitude desafiadora que não permite o esquecimento de quem passa por eles diariamente. Quem visita a cidade se espanta com o abandono de áreas que não foram atingidas. Os locais que estão em recuperação têm o apoio (talvez integral) de iniciativa privada, de doações, de ONGs, como acontece em Vieira, onde a Minha Ajuda Sua Casa faz um trabalho maravilhoso (esse fim de semana teve distribuição de agasalhos).


Tem muita coisa errada. Em Ponte Nova, a escola está abandonada e nunca voltou a funcionar. As crianças foram estudar na Serra do Capim, que fica há uns 10 km de distância. O ônibus da escola passa pelos arredores buscando as crianças. Há três semanas quebrado, as crianças não têm ido à escola. São crianças que querem estudar, que gostam, que são inteligentes e que têm um mínimo de esperança de ter um futuro diferente. É a chance do interior se manter povoado e dessas crianças não precisarem ir para a cidade diariamente. Mas na Secretaria de Educação informaram que há vários ônibus nessa situação. Nos deram o telefone da garagem que faz os reparos, pedindo que ligássemos "colocando mais pressão".


O povo tenta manifestar a sua opinião em demonstrações para tentar tirar o prefeito atual. Mas parece que quem está lá dentro é simplesmente cego, surdo, insensível, só para começar. Enquanto isso, vamos convivendo com escombros, ruas esburacadas, falta de escolas e atendimento médico, políticos que aproveitam a situação para se dar bem (por todos os lados), e um povo feliz por bancar obras de bilhões para reformar um estádio de futebol para receber uma copa do mundo. Vai ser lindo. O país vai ficar ótimo, exatamente como fica um armário entulhado de bagunça escondida da visita. Mas espera só a visitar ir embora e tenta abrir a porta do armário para ver o que acontece...


Não sei a quem recorrer. Não adianta nada só escrever. Caetano tem razão, o Haiti é aqui.

domingo, 13 de março de 2011

Buracos em Terê

















Estes são apenas alguns dos buracos que eu fotografei hoje pela manhã em Teresópolis. A maioria das fotos foram feitas na Reta, principal avenida da cidade. Tem ainda algumas outras perto do Hospital das Clínicas, na Prata, perto da Faculdade de Veterinária (onde ainda tem terra de barreiras que caíram em 12/01) e na Manuel Lebrão, pegando a Rio-Bahia perto da APAE.
Não sei o motivo para tanto descaso com a cidade. Está tudo um horror. O dinheiro, todos sabemos que entra. A saída é que é duvidosa. No momento em que a cidade deveria ser mais cuidada para tentar atrair mais turistas, está parecendo um lixão. Um verdadeiro horror!




sexta-feira, 11 de março de 2011

Japão x terê

Que tragédia no Japão! Nossa, fico imaginando o que as pessoas que estão lá ao vivo e a cores não devem estar vendo e passando. Quanta gente morta, quanta tristeza. Me pergunto também se lá eles irão mentir a respeito do número de mortos, se a população vai ficar abandonada, se o prefeito vai transmitir a impressão que ele está aproveitando a grana que entra fácil pelo estado de calamidade decretada para tirar umas férias e sumir da cidade...
Hoje estamos completando 2 meses de tragédia na nossa região. Hoje fui a Conquista e voltei observando cuidadosamente a região de Vieira. Como é lenta a reconstrução! Vi muitas casas pintadas, lavadas, refeitas. Mas ainda tem muita coisa em escombros. Tem muita coisa sendo reconstruída, ainda tem algumas lojas fechadas. Ainda vemos placas do estilo do Pesqueiro - "Restaurante fechado. Estrada bloqueada". Mas vi bastante obra. As mulheres que já trabalhavam aos montes nas lavouras, agora também trabalham em obras. Os tratores ainda estão na limpeza da terra que, acreditem, ainda está nos cantos das rodovias. Ainda tem muita lama que já foi lama, já foi poeira e agora voltou a ser lama já que estamos entrando no décimo dia consecutivo de chuva.
Quero ver a comparação da reconstrução das cidades atingidas no Japão e da nossa região. Quero ver a comparação do respeito com que vão tratar os mortos e desaparecidos de lá com os de cá.
Quero ver a comparação da atitude dos governantes de lá com os de cá.
Quero ver o que o mundo vai achar disso, e quero ver o tamanho da vergonha que será quando essas comparações forem feitas. Vai ser do tamanho do tsunami...

segunda-feira, 7 de março de 2011

Reflexões de carnaval


Como falei no primeiro post, eu sabia que não conseguiria escrever diariamente por muito tempo. Ultimamente nem tenho conseguido participar dos eventos importantes na cidade. Teve o I Fórum Nacional de Prevenção e Gerenciamento em Eventos Extremos, organizado pelo CEAT e não pude ir. Estou de mudança, e isso consumiu o meu tempo (livre e não livre!) durante vários dias. Mas li a Carta de Teresópolis, resultado do Fórum. Seria muito bom que tudo que é colocado na carta fosse de fato atendido.



Hoje uma tia minha, que mora em São Paulo, me perguntou se eu achava que as coisas já estavam tomando um rumo. Acho que bastante coisa já tomou um rumo. E vejo ainda muita coisa e muita gente perdida, totalmente sem rumo. Cada vez que vou a Santa Rita ainda me espanto com o que vejo. Nunca entrei no Campo Grande, mas acho que não vai ser diferente do que eu já vi que significa quando se diz que "não sobrou nada". Mas vejo as lavouras retornando, gente reconstruindo casas, lojas reabrindo. A escola de Ponte Nova só agora está começando a ser limpa novamente. Os alunos que sobraram foram transferidos para a escola de Serra do Capim. Ainda tem os escombros das casinhas que foram arrastadas. Não queria mesmo que daqui a anos esses mesmos escombros permanecessem lá. Não é apenas uma questão de estética. É uma questão de amor próprio. O astral melhora quando o ambiente está limpo, bonito, arrumado.


Em Sebastiana já pararam com a distribuição de cestas básicas. O que no início foi ajuda essencial, estava começando a atrapalhar o desenvolvimento e a retomada a uma normalidade. Com ajuda privada, as lavouras já estão começando a ter condições de voltar a trabalhar. Mas a mão de obra estava faltando. Muita gente em casa, abastecido por ajuda externa, e com isso aumentando o etilismo. Outro dia parei para uma água num barzinho/armazém na beira da estrada em Vieira e soube que a moça que trabalhava lá estava em casa com depressão desde a enchente. Me dei conta que sempre achei que depressão fosse um problema de rico, e não de pobre. Também soube de crianças que estão com problemas na volta às aulas, pela perda de amiguinhos.


No início falaram na desapropriação da Fazenda Ermitage. Depois falaram que não seria possível. No final das contas, não sei o que foi decidido. Onde serão construídas as casas para os desabrigados, para as pessoas que moravam no Bairro de Campo Grande, que no último censo tinha 6 mil habitantes. Então decidi entrar no site da Prefeitura de Teresópolis para tentar descobrir alguma coisa. Para minha surpresa, a última atualização da parte de "Central de desaparecidos" foi no dia 25 de janeiro. Não sei mesmo porque isso me espanta. Praticamente 2 meses depois da tragédia, o caminho da Prata ainda está interditado. Simplesmente interditado, já que passo lá diariamente, em diferentes horários, frequentemente mais de uma vez ao dia, e nunca vi uma máquina trabalhando lá. Todos os carros tem que passar pelo acesso lateral (rua do Detran), que vai dar em uma obra na Rio-Bahia (contenção de uma encosta enorme, obra da CRT), e forma-se uma fila enorme de carros diariamente. Nunca vi a cidade tão esburacada em suas vias principais, nunca vi tanto abandono. Acho no mínimo desrespeitoso e ridículo esse número de "373 mortos e cento e poucos desaparecidos".



Também em alguma postagem anterior, falei que talvez tudo já tivesse sido esquecido quando o carnaval chegasse. A Prefeitura cancelou o carnaval na cidade. Era só mesmo o que faltava, a essa altura gastar mais dinheiro com um desfile (que sempre é horroroso), shows e festas. Chove há mais de uma semana. O tempo ficou cinza e frio. Acho que o carnaval foi uma pausa para todos respirarem e pegarem fôlego para o ano finalmente começar.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Cadê esse governo?????

Hoje dei uma parada na Escola Aluízo Souza Silva em Providência. É uma escola que não funciona desde a sua inauguração, porque foi construída na beira da estrada (BR 116), onde não tem passarela ou retorno para acessá-la. Seria uma escola para todo o ensino médio, com salas de informática, biblioteca, quadra, refeitório, enfim, tudo. Mas nunca funcionou, mesmo tendo sido inaugurada pelo governo do último prefeito. Eles recolhem muitos donativos, e os distribuem para todas as regiões do segundo distrito de Teresópolis. Algumas pessoas vão até lá buscar alimentos, ou então eles levam para as áreas AINDA isoladas, como Santa Rita. Parei lá para deixar algumas coisas que a Edith me trouxe, coisas vindas direto da França por aeromoças da Air France.
Fiquei, junto com o meu pai, conversando um pouco com o Martins, coordenador das ações de lá. Os problemas vão surgindo. Os agricultores encontram uma dificuldade imensa em entregar os seus produtos. Antes da enchente, eles empilhavam as caixas com a colheita na beira da estrada, em frente à lavoura, e um caminhão passava e recolhia. Hoje, eles precisam caminhar uma distância imensa, carregando caixas pesadas, uma a uma, até a beira da BR, onde os caminhões podem passar. Outro problema sério está senda a volta às aulas. As crianças estão sentindo enormemente a falta dos amiguinhos mortos ou desaparecidos. Amanhã o Martins vai buscar uma psicóloga na rodoviária que vem para trabalhar em algumas escolas. Voluntária do Viva Rio. O Viva Rio é quem mais faz doações nessa região. Tem muitas pessoas ajudando também, e isso o Martins fez questão de falar, mas o grosso vem do Viva Rio.
Onde está o governo, que já era para estar fazendo o que os voluntários ainda fazem? Já era para estar equipando novamente os agricultores, já era para estar dando apoio psicológico às crianças nas escolas, era para estar investigando esse aumento abusivo no valor dos aluguéis de imóveis.
Que governo é esse que rouba até não poder mais? Quanta burrice!!!!!! Se ele tivesse fazendo uma mínima política populista, teria cadeira cativa na prefeitura. O povo sentiria um mínimo de amparo, e isso faria uma diferença moral enorme. Não teria esse sentimento de abandono, que é o que eu mais vejo por aí. Pessoas isoladas, pessoas que perderam absolutamente tudo (inclusive vidas de pessoas direta e indiretamente relacionadas), pessoas sem a menor perspectiva de um futuro, ficam esperando alguma ajuda que chega eventualmente em um jipe ou uma moto ou por alguém a pé. Ajuda que chega de forma totalmente independente, dentro do limite que cada um pode oferecer. Enquanto isso, nosso digníssimo prefeito Jorge Mário faz o que????? Esse vídeo é uma pequena amostra do que anda rolando por aqui.